domingo, 25 de outubro de 2009

Twelfth day

Sabe aqueles personagens de desenho animado, bem caricatos? Então imagine uma mulher com dentes enormes, tortos e amarelados, e unhas de tamanhos e formatos diferentes. Assim é Nicole, uma inglesa que aparenta ter cerca de 50 anos e trabalha numa das agências do banco Lloyds. Nunca vi nada igual. Pelo que observei ela abandonou cortador de unhas, alicate e lixa há décadas e as unhas, com vida e vontade próprias, seguiram cada qual seu o caminho. Uma mais para a direita, outra mais para esquerda, algumas para cima e outras para baixo. As mais frágeis se quebraram e nem por isso são menos assustadoras.

Porém, pude comprovar que as aparências muitas vezes enganam. Por trás daquelas unhas e dentes digamos assim ‘peculiares’ existe uma mulher atenciosa e paciente que ficou quase uma hora me explicando as vantagens e desvantagens de cada tipo de conta/cartão. Eu queria o mais simples e mais barato, mas foi difícil explicar. No final deu tudo certo e eu finalmente sou titular de uma conta bancária em Londres, que segundo meus colegas e amigos será exigida assim que eu começar a trabalhar aqui.

Eu quase pedi para fazer uma foto, ou melhor, um close das unhas da Nicole. Mas ela foi tão gentil comigo que me deixou sem graça. Eu me despedi com um sonoro: "Thank you, thank you very much darling!" E ela me deu até dois beijinhos no rosto. Medo! rs



Fachada do prédio Waterloo Palace, onde funciona
a agência que abri a conta



A entrada do banco. Portas automáticas e sem detector de metais.

sábado, 24 de outubro de 2009

Eleventh day

Hoje (1 de outubro) é o dia do aniversário da minha mãe. Tive vontade de ligar para ela na hora que acordei, mas ainda era madrugada no Brasil. Minha mãe é uma mulher de personalidade forte, batalhadora e decidida. Além disso, ela é bonita e vaidosa. Meu pai morre de ciúmes dela e eles parecem um casal de namorados quando saem para dançar, mesmo depois de 37 anos de casamento.

Minha mãe não teve as mesmas oportunidades, nem fez as mesmas escolhas que eu. Queria muito estudar e ser professora, mas a “nona” não deixou. Ela precisava ajudar a família grande (oito irmãos) de agricultores. Desde pequena trabalhou pesado na lavoura, casou cedo, teve dois filhos, já tem uma neta e é totalmente dedicada à família. Ela apóia minhas escolhas, mas sei que preferia que eu já estivesse casada e com filhos também.

Sei o quanto ela se preocupa comigo e que se pudesse me manteria pertinho dela o tempo todo. O 'problema' é que ela me ensinou a ler e sempre me incentivou a estudar. Eu cresci e os livros despertaram em mim a vontade de conhecer um pouco mais do mundo. Eu saí de casa para fazer faculdade de Jornalismo na ‘cidade grande’ (São Leopoldo) aos 18 anos. Depois de formada fui morar na capital Porto Alegre com meu (ex) namorido, ou seja, escolhi morar junto antes de casar. Um ano depois mudamos para São Paulo e a preocupação só aumentou. No ano passado meu relacionamento de quase oito anos acabou e minha mãe sofreu junto comigo.

Agora estou em Londres sozinha e sinto o quanto ela está preocupada comigo. Eu sei o quanto minha mãe admira minha coragem para encarar a vida de frente e realizar meus projetos e sonhos, mas também sei que ela ainda me vê como aquele bebê frágil, branquinho e ruivinho que ela colocou no mundo. “Mãe fica tranquila. Você está sempre comigo. Essa rosa do Regent's Park é para você! TE AMO!”




Tenth day

Olhei pela janela e fui recebida por um lindo dia de sol. Não dei ouvidos para a preguiça, que insistia em me manter na cama, pois teria um longo dia pela frente. Burocracia é burocracia em qualquer lugar no mundo. Já preenchi um monte de formulários desde que cheguei aqui. O primeiro para fazer o registro na polícia, o segundo para solicitar o Oyster de estudante, cartão que garante desconto no transporte, e um terceiro para abrir conta no banco.

Uma dica para quem vier para Londres. Tente resolver essa parte burocrática na primeira semana, se possível no segundo ou terceiro dia, porque eles demoram muito para fazer as cartas.

Hoje fui encontrar com a Carol - amiga da Lú, que é uma amiga de Porto Alegre. Ela trabalha numa agência de empregos e fui lá fazer um contato. Esse primeiro mês vou ficar mais focada em estudar, passear pela cidade e procurar um lugar para morar, mas é bom já ter algumas opções em vista.

Preciso me agilizar com a procura por um novo lugar para morar. A hospedagem em casa de família é muito cara, por isso paguei apenas quatro semanas. Já pesquisei algumas casas na internet, anotei anúncios na escola e comentei com amigos e colegas que estou procurando.

Ainda não sei se vou alugar um quarto sozinha ou dividir, que é a opção mais barata. Acho que já falei da minha amiga turca Hatice, que também é jornalista e está planejando mudar de casa em breve. Ela mora com uma senhora turca, que só falo turco, só ouve música turca e só assiste canais de televisão turcos. Imagina a situação da moça. Volta para casa em Londres e tem e sensação de voltar para a Turquia. rs

Se conseguirmos um lugar para dividir, acho que será muito bacana, pois só nos comunicamos em inglês e linguagem de sinais. rs


Passeio noturno


Chinatown


Teatro próximo do metrô Totthenham Court


Musical em cartaz em outro teatro


Minha amiga Hatice é turca, jornalista, namora um alemão
e fala apenas uma palavra em português: saudade!

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Ninth day

Dia de madrugar novamente. Banho, café, metrô. Cheguei uma hora antes do posto policial abrir e a fila já estava grande. Na minha frente, três japonesas. Eu sei que eu falo pelos cotovelos, mas aquelas três pelo amor de Deus! Elas não calaram a boca nem por um miléssimo de segundo. Eu já não aguentava mais aquela fila que não andava, o sol quente na minha cabeça, muito menos aquelas três japonesas tagarelas. Tive que criar e praticar um mantra para manter a calma e a sanidade mental.

Quase quatro horas depois consegui entrar e me deparei com placas de ‘no mobile’, ‘no pictures’, ‘no smoking’ e ‘no foods’ por todos os lados. Passei pelo detector de metais e abri a mochila para o guarda olhar. Ele olhou, sorriu e disse: Are you from Brasil? E eu, absolutamente incrédula, respondi: Yes! Aí ele soltou o clássico: I like Brasil. I like samba, futebol, carnaval... e não é que o moço era um jamaicano apaixonado pelo Brasil? Acho que algumas coisas só acontecem em Londres mesmo.

Fiquei muito surpresa, porque enquanto todos me perguntam se sou alemã, russa, polonesa... ele acertou de primeira. Eu não tinha falado uma palavra com ele e meu passaporte estava dentro da carteira. Fiquei me perguntando que diabos ele viu na minha mochila? Será que foi meu “pequeno” chaveiro verde de borboleta? Só pode ser. rs

Duas horas depois deixei o posto policial devidamente registrada. Ufa!

Eight day

Não tive uma noite muito tranquila de sono e acordei cedinho (6h30), pois precisava fazer meu registro na Polícia de Londres. Conferi no mapa do metrô a rota que precisaria fazer até lá, mas primeiro tive que passar na escola para retirar a carta confirmando que estou frequentando as aulas. De Piccadilly segui para a estação de Borough, onde fazem o registro.

Não acreditei quando vi a fila dobrando a esquina. Fiquei esperando cerca de uma hora até um funcionário falar que estava encerrado o atendimento e deveríamos voltar no dia seguinte. Fiquei puta da vida, mas não tinha o que fazer. Fui direto para a escola e consegui mandar alguns e-mails. Fiquei brava de novo porque é um saco não ter internet em casa.

Ok, ok, ok, voltemos ao lado bom de Londres. Hoje a minha turma recebeu novos alunos e uma nova professora chamada Christy. Ela nasceu em Nova York, mas casou com um inglês e mora em Londres há muitos anos. Gostei dela de cara. A aula foi diferente e divertida. Além disso, ela fala bem mais devagar que a professora irlandesa e explica tudo com calma.

O dia começou meia boca, mas a noite acabou ótima. Conheci um pub/restaurante super charmoso chamado Churchill Arms, em Nothim Hill. O lugar é muito bacana, tem vários objetos pendurados no teto, ambiente aconchegante e comida muito gostosa servida num segundo ambiente. Bebi um pinot grigio, vinho italiano muito popular em Londres - principalmente entre as mulheres, e provei um dos pratos de comida tailandesa.

Na mesa ao lado, um inglês contava para os amigos suas aventuras pelo Brasil, mais especificamente pelas praias e favelas do Rio de Janeiro. Ele estava empolgado e parece ter voltado com uma impressão boa do Brasil.

Antes de voltar para casa fui ao 'toillet' e me deparei com flores por todo o lado e um papel de parede repleto de borboletas. Foi uma visão tão inesperada que mereceu o registro.


O pub


 A comida


A bebida


A pessoa


E o banheiro

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Seventh day

Domingo preguiçoso. Acordei tarde, tomei café e decidi que ficaria em casa estudando um pouco e, para aproveitar o dia lindo de sol, faria uma boa caminhada por Wimbledon para conhecer melhor o bairro.

A Sra. Pamela finalmente ligou para a prestadora de serviços de TV e Internet. Prometeram mandar um técnico amanhã. Aleluia! O telemarketing da operadora fica na Índia e o processo todo é muito lento. Ela ficou umas duas horas tentando entender e ser entendida pelos atendentes. Pensei que só no Brasil sofrêssemos com a péssima qualidade da prestação de serviços.

O passeio pelo bairro, apesar de solitário, foi muito agradável. Sol quente em contraste com um ventinho gelado de outono. Caminhei sem pressa e sem destino certo. Entrei em livrarias, brechós e várias lojas de rua. Wimbledon é um bairro residencial e não vejo muitos estrangeiros quando ando por aqui. Tenho a impressãso que a grande maioria dos moradores são ingleses mesmo.

Comi um belo sanduíche de frango e salada sentada num banco de madeira, me deliciei com um chocolate suíço, comprei um mapa de Londres que será super útil em minhas andanças pela cidade e um lindo lenço de seda verde.

O vendedor indiano, que tem parentes no Brasil, queria me vender uma luva de couro preta, mas eu achei muito cara. Até o frio chegar de verdade eu volto, ou encontro outra luva, em outro lugar. Na volta para casa estudei um pouco e assisti TV. Consegui ver a última parte de um filme e algumas noticias na BBC antes de ficar com sono. Ah, achei alguns comerciais bem diferentes e divertidos. Além disso, assistir os programas ingleses me ajuda a acostumar com o sotaque.



Blues no caminho do metrô


Passeio no shopping


Wimbledon também tem filial do Walk About


Adoro esse carrinho. Lembro do filme "Um bom ano",
com o Russel Crowe e a Marion Cotillard.

Sixth day

Acordei com meu telefone tocando, lá pelas 11h da manhã. Era o Pedro, um dos poucos amigos brasileiros que tenho em Londres, convidando para um passeio. Eu fui apresentada ao Pedro em junho, via msn, pela Morgana. O legal é que ele começou a me dar dicas sobre a cidade enquanto eu ainda estava no Brasil. 

Nos encontramos na estação de Embankment, no centro. Descobri que posso pegar o metrô direto da estação de Wimbledon, sem precisar fazer baldeação em Earl’s Court. Dia da turista Geovana conhecer o Buchingham Palace, o Green Park, o St. James Park, o National Theatre e South Bank. É tudo muito mais bonito pessoalmente!

Os parques estavam lotados. Todo mundo aproveitando o dia lindo de sol para passear e fazer piquenique. Eu adoro piquenique. Não tínhamos cesta de vime, nem toalha xadrez, então o jeito foi improvisar. Compramos sanduíches, chocolate e suco, juntamos com as frutas que eu tinha bolsa (aqui eu passo o dia na rua e estou sempre com frutas, água e biscoitos na bolsa), cobrimos a grama úmida com jornal e pronto.

Depois a maratona seguiu e andei pela primeira vez no ônibus de dois andares. É muito legal ver a cidade lá de alto. O problema é que era sábado e todo mundo resolveu sair de casa. O trânsito estava super lento e tivemos que trocar de ônibus dois pontos depois. Descobri que em Londres os ônibus também quebram e que, a exemplo de São Paulo, são bem mais lentos que o metrô. Portanto, o metrô continua sendo meu meio de transporte público preferido.

A parada seguinte foi o National Theatre, onde além de peças de teatro bacanas, sempre rolam shows e eventos gratuitos. Fiquei apaixonada pelo lugar. Uma dupla de músicos indianos fez uma apresentação de cítara e percussão.

Ainda tivemos tempo para uma caminhada na beira do rio Thames e para provar o Pimm’s, um drink refrescante servido com frutas. Dia lindo!


Palácio de Buchingham


Lago e London Eye ao fundo


St. James Park



National Theatre



Beira do rio Thames em South Bank

Fifth day

Hoje acordei assustada. Tive um sonho estranho e lembrei que tenho apenas sete dias para fazer meu registro geral na Polícia de Londres. Sem o registro ficarei encrencada para renovar meu visto de estudante. E vai que eu resolva ficar mais do que seis meses, né? Melhor não vacilar.

Lá fui eu fazer foto e pedir a carta na secretaria da escola. Desci em Piccadilly e fiz a foto numa 'lojinha' dentro da estação mesmo. Já aproveitei e usei uma das fotos para a minha carteira de estudante. Nossa, fila interminável na secretaria e na sala de internet. Hoje eu não levei meu lap top. Como me plano é andar pela cidade depois da aula, não estava a fim de carregar peso. Mas depois me arrependi porque só consegui acessar meus e-mails 5 minutos antes da aula começar. Droga! Já falei coma a Sra. Pamela, mas não sei quando a internet será consertada.

Ouvi algumas pessoas falando português no metrô hoje, mas fiquei de bico calado. Na cantina da escola também trabalham brasileiros. No meio da aula quando fazia um exercício em grupo soltei um “né?” no final da frase e tive um ataque de riso junto com os dois colegas brasileiros.

Na semana que vem parte da turma vai mudar de nível e alguns vão embora. Rolou uma confraternização  com direito a vinho, cerveja, suco de laranja e água. Depois da aula fui com alguns colegas passear pelas ruas do Soho e Chinatown. Muuuuita gente, muita muvuca e eles não quiseram entrar em nenhum lugar. Andamos, andamos, andamos... Fiquei cansada. Voltei para casa lá pelas 11h da noite. Já passava das 2 da madrugada quando acordei para ligar para algumas pessoas queridas e amadas que ficaram no Brasil. Saudades!

 Piccadilly Circus

Fourth day

Dormi até mais tarde e acordei com as minhas costas doendo. Esse colchão com certeza já passou por pelo menos uma das grandes guerras mundiais. Eu pensei em reclamar, mas como vou ficar aqui apenas quatro semanas, acho sinceramente que a Sra. Pamela não vai comprar um novo. Ao abrir a geladeira percebi que minhas preces foram atendidas e o cheiro insuportável do primeiro dia havia desaparecido. Thank God!

Hoje descobri que mora mais uma pessoa na casa. Um tunisiano, me contou a dona da casa. Ouvi ele falando ao telefone em francês na noite passada, mas nossos horários na casa são tão diferentes que é provável que a gente nunca se encontre. rs

Ah, hoje voltei ao Tesco para comprar bananas, maçãs, iogurte e umas comidinhas prontas porque não me animo nem um pouco a cozinhar na casa. Tudo muito bagunçado e sujo. Ok, vou poupá-los dos detalhes. Talvez fale sobre o assunto um outro dia. Estou animada e quero escrever sobre as coisas boas. rs

Na escola conheci dois colegas novos. Um italiano chamado Roberto e uma polonesa chamada Joana. Ambos também na faixa dos 30 anos. É bem bacana perceber que cada vez mais pessoas correm atrás da realização de seus projetos e sonhos sem preocupações do tipo: "Não tenho mais idade para isso!"          

Eu sempre tive muita vontade de fazer um intercâmbio, desde a época do ensino médio. A vontade aumentou ainda mais na época da faculdade, mas os anos foram passando e outras prioridades acabaram surgindo e deixei o projeto guardado quietinho numa daquelas gavetas de sonhos. Esse ano eu decidi abrir a gaveta, sacudir e poeira e deixar o sonho fluir...

Também em Piccadilly Circus:

A famosa estátua de Eros





Uma das entradas/saídas do metrô



 
E o bus

Third day

Banho, café e tudo na mochila. Minha missão era comprar alguns gêneros de primeira necessidade no supermercado e um adaptador universal para conseguir carregar as baterias do celular e do lap top. Aqui em Londres as tomadas tem três pinos, por isso a necessidade do adaptador. Meu amigo Mark já havia me avisado disso no Brasil, então lá fui em busca do bendito acessório. Bem ao lado da Wimbledon Station encontrei o supermercado Tesco. Uma maravilha! Descobri que comprar comida em alguns supermercados de Londres é mais barato que em São Paulo. Eu juro que converti tudo de libras para reais e ficou mais barato mesmo.

Consegui comprar o adaptador por 4 libras na Boots, uma loja bem legal que vende uma infinidade de coisas e trecos - principalmente produtos de higiene pessoal, e tem filiais pela cidade toda. O adaptador estava bem na entrada da loja, consegui resolver tudo rápido e sem stress. Deixei as compras em casa e acabei indo mais cedo para a escola. Consegui finalmente mandar meus primeiros e-mails de Londres. Eu amo minha família e meus amigos. É incrível como a distância geográfica torna isso mais forte e evidente. E é muito bom me sentir amada também. Thank you!

Hoje a aula foi legal e conversei mais com a moça morena de olhos verdes, que eu jurava que era espanhola, mas é turca. E a menina da Bélgica, a Emilie, perguntou se era russa ou irlandesa. Humpf!


Estava tudo muito bem, mas mal sabia eu que a melhor parte do dia ainda estava por vir. Foi no começo dessa noite de garoa fina e fria que eu vi pela primeira vez o Big Ben e a London Eye. Eles já eram meus velhos conhecidos de fotos, livros, filmes... mas olhar bem de perto esses símbolos mundialmente famosos de Londres foi muito legal. Com certeza vou voltar durante o dia para fazer mais fotos.

E como a noite era especial, resolvi provar o tradicional Fish and Chips no Horniman’s At Hays, um pub super bacana em London Bridge. Delicious!



 Só alegria e a Londo Eye como cenário 




 Fish and Chips e Beer...


Second day

Só consegui levantar da cama depois das 9h da manhã, com dor de cabeça e muita fome. Fui até a cozinha e encontrei pão, iogurte, leite, cereais, nutella (que eu adoro), manteiga e uma xícara com um saquinho de chá. Os cereais já estavam abertos e deviam estar ali desde a penúltima Rainha. Quando fui guardar as coisas na geladeira senti um cheiro horrível. Acho que há algo de podre no Reino da Sra. Pamela. Eu sou muito chata com limpeza, mas já percebi que aqui terei que relaxar, literalmente. rs

Tomei um banho e saí ansiosa para ver e andar pela cidade. O mapa até o metrô estava certinho. Levei uns 15 minutos proque fui olhando tudo ao meu redor. Na entrada da estação vi as máquinas que vendem tickets e resolvi pedir ajuda. Dinheiro diferente, língua diferente... lá fui eu exercitar meu: "Could you help me, please?"

Uma funcionária (inglesa) tentou me explicar como funcionava, mas não entendi quase nada do que ela falou. Êita sotaque difícil. Aí achei melhor comprar direto no guichê. Depois de entender que o bilhete deveria ser comprado por zonas (minha casa fica na zona 3)e que valia mais a pena comprar para sete dias, fiz meu pedido. E lá se foram 30 libras. Caramba, o transporte público é bem caro aqui.

O segundo funcionário, também inglês, perguntou de onde eu era e quando eu falei Brasil, ele ficou muito empolgado, mas muito emplogado mesmo. O que eu entendi é que já conhece o Rio e Salvador. Oh my god! Bom, ele encerrou a conversa dizendo que eu parecia ser alemã, não brasileira. Eu ainda não tenho ceeteza se isso é bom ou ruim. rs

O trem partiu quase vazio e foi ficando lotado. No meio do caminho fui confirmar se eu precisava trocar de trem na estação seguinte para pegar a Piccadilly Line e sem querer acabei pedindo informação para um brasileiro. O Igor é um carioca que mora em Londres há três anos e estuda teatro na Escola de Artes de Londres. Um contato bacana já que pretendo fazer algum curso livre na área enquanto estiver por aqui.

Na escola correu tudo tranqüilo. Cheguei mais cedo, me identifiquei na secretaria e logo depois de fazer um teste rápido, fui encaminhada para a minha turma. Na verdade, tenho duas turmas e meus colegas são de diversas nacionalidades: Colômbia, Bolívia, Chile, Turquia, Bélgica e Brasil, é claro. Uma hora de conversação com o professor inglês Alex, mais três horas de gramática com a professora irlandesa Emeli.

Depois da aula fui andar pela Oxford Street para encontrar uma loja da O2, operadora de celular, e olhar a cidade, claro. "Caracas, que cidade mais linda. Nem acredito que estou aqui", eu dizia para mim mesma. rs Paguei 5 libras pelo chip, coloquei mais 10 libras de crédito e ganhei 100 minutos para ligar para o exterior. Oba! Gostei dessa promoção.

Na volta para casa, desci na estação errada para a troca de trem e fiquei rodando pela estação tentando descobrir o caminho certo. Eu estou super acostumada a andar de metrô em São Paulo, mas o metrô de Londres é bem mais complexo. Bom, procurei um funcionário do metrô e com o mapa na mão consegui explicar para onde eu estava indo. Muito educado e atenciosos ele me indicou a plataforma correta. Na verdade, eu não estava tão perdida e logo defini uma nova rota e cheguei em casa sã e salva. Estou encantada pela cidade. Foi AMOR a primeira vista.



Estação de Wimbledon




Piccadilly Circus: esquina da Shaftesbury Avenue e
a Regent Street. Prédio onde fica a escola.

First day

O vôo JJ 8084 – que decolou de São Paulo às 11h55 da noite de domingo, pousou em Londres numa bela segunda-feira de sol e cerca de 20 graus de temperatura. Enquanto soltava o sinto de segurança uma lágrima brotou do meu olho direito. O esquerdo só ficou marejado. Lembrei na hora da peça Os Sete Gatinhos, de Nélson Rodrigues, e do personagem Noronha que sonhou com “o homem que chorava por um olho só”. Foi uma cena engraçada. Eu sou assim meio exagerada e choro sempre que fico emocionada. O bom é que dessa vez foi de alegria.

Após o pouso, foram mais de 15 minutos esperando para desembarcar. A mochila pesava horrores, meu pescoço estava torto, as costas doloridas e os pés inchados por causa das 11 horas de vôo, mas eu estava feliz da vida. Olhei ao redor e reconheci aquela mesma sensação em muitas pessoas. Fora uma meia dúzia de gringos, a maioria dos passageiros eram brasileiros ansiosos por rever familiares, um casal em lua de mel, um rapaz que viajou para visitar a irmã doente e mais alguns estudantes.

Depois de mais ou menos uma hora na fila da imigração, ouço o tão esperado Next! Um senhor sério e com cara de poucos amigos olha meu passaporte, pergunta quanto tempo vou ficar, pede a carta da escola, o endereço da residência e ‘clept’, carimba meu passaporte.

Deixo o guichê e sigo quase saltitante pelo corredor em busca da mala que já está lá rodando na esteira com as fitinhas brancas e verdes amarradas. Saio e nada de ver a placa com meu nome. Alguns minutos depois chega o Sr. Norberto (motorista contratado pela escola). Ele é um paranaense que vive em Londres há cinco anos. No caminho até Wimbledon, onde vou morar durante as próximas quatro semanas, vi os ônibus de dois andares, as charmosas casas inglesas, as ruas largas e arborizadas e o Wimbledon Theater. “Esse teatro é muito legal e fica bem perto de onde você vai morar”, me avisa o motorista.

Reconheci a casa da Sra. Pamela pela foto enviada pela agência. Fica no andar de cima de um sobrado. O único problema foi carregar a mala, mochila, casacos e bolsa pelos dois lances de escada. Putz, o Sr. Norberto pode até conhecer o Wimbledom Theater, mas não é um gentleman. Foi embora rapidinho e tive que carregar tudo sozinha.

A casa tem três quartos, sala, cozinha e banheiro. Minha anfitriã mostrou meu quarto, como funcionava o chuveiro e onde ficavam as coisas na cozinha e até desenhou um mapa indicando o caminho até o metrô. Ela é uma inglesa simpática de olhos azuis, cerca de 60 anos, mãe de quatro filhos e avó de três netos.

Organizei minhas coisas, tomei um banho e tentei acessar a internet. Após algumas tentativas frustradas percebi que não estava mesmo funcionando. O cansaço me venceu e fui dormir, ou melhor, deitar. Fiquei acordada por um bom tempo, empolgada com tanta novidade.

Home! Sweet home!


Meu quarto fica na primeira janela aí em cima, no
 cantinho do lado esquerdo.

E com vocês: New Wimbledon Theater!


Prestou atenção no detalhe do sol iluminando a foto?